Domingo, 15 de Junho de 2008

Pode encontrar-se G sem uma equação de duas incógnitas?



Ainda sobre os gajos e os mapas. Sobre a necessidade que sentem em firmar a certeza dos percursos traçados em linhas normalizadas, numa tentativa vã de fixar o inagarrável, de explanar formal e milimetricamente o inexplicável, de tentar estabelecer fórmulas para químicas imponderáveis. Sobre a dificuldade masculina em aceitar que nem sempre se pode aplicar o raciocínio metódico, laborioso e meritório que permitiu a descoberta do caminho marítimo para a Índia.

E vem o assunto novamente à baila, não porque eu seja insuportavelmente obsessiva, que não sou... (vá... um bocadinho), mas porque acabei de ler uma entrevista ao conceituado investigador Emmanuel Jannini, o mesmo ilustre cientista que há algum tempo conseguiu confirmar a existência do Ponto G e que pretende agora levar a cabo um novo estudo para dar a conhecer com exactidão quantas mulheres têm a graça de o possuir. Sim, porque ao que consta (pelo menos a ele), tudo leva a crer que a dádiva não foi distribuída equitativamente pelo mulherio.

Pois é. E este senhor, após vários anos de aturadas experiências, através da análise exaustiva de exames ecográficos, ultra-sons e marcadores bio-químicos, demarcou, numa área específica entre a uretra e a vagina, o ponto X, isto é, G. Tinha de ser um gajo. Estou mesmo a vê-lo, de batinha branca, com um dispositivo de lanterna na testa e dedinhos assépticos, a legendar o local. Eh eh. É preciso uma paciência prós gajos... Como se o Ponto G correspondesse a uma sinalética topográfica... assim, tipo uma cruzinha azul Sião (fica bem, no vermelho vivo - e há que procurar um certo sentido estético em todas as situações) no guia Michelin, logo acima das Grutas de Mira de Aire...

Como se o ponto G fosse uma grandeza redutoramente física. Como se o valor de G não resultasse de uma equação com duas incógnitas.

Sendo G o símbolo supremo do prazer feminino, a sua demanda relaciona-se com outro tipo de saberes e deriva do conhecimento partilhado de outro tipo de indicadores que não ultra-sons e marcadores bio-químicos... e de outros sinais, que não os das informações codificadas das ecografias.

Depende daquele outro tipo de conhecimento que te leva a reconhecer ao milímetro – e ao toque de qualquer um dos sentidos – o mapa que se tatua no teu em todas as dimensões... a entender o volume e o timbre dos murmúrios presos na garganta... a decifrar os pedidos simplesmente olhados... a interpretar a textura urgente da carne que se dissolve na tua.

Depende da sabedoria que tem origem numa intimidade partilhada, rara e valiosa, que te legitima uma liberdade absoluta para seres quem tu queres ser e para confiares sem travões no vórtice que te puxa para onde todos os sentires são possíveis, desde que desejados. E quando assim é, nem fazes a menor ideia de onde pulsa o G... e isso é absolutamente irrelevante.

Mania de misturar os saberes. Humpf. Já me calo. Parafraseando Woody Allen, brilhante pensador contemporâneo, não posso ouvir muito Wagner, começa-me logo a dar vontade de invadir a Polónia.

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Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

O Claustro (a pedido do Ministro Finúrias)

 

 

 

 



As meninas eram pequeninas demais para saber ver as horas, mas conheciam as rotinas de cor. O grupinho saía do refeitório numa barulheira alegre e despreocupada que se ia transformando em silêncio e resignação à medida que se aproximava da Sala do Claustro. Depois do almoço, havia a perpétua certeza da Aula de Religião.

A Sala do Claustro era contígua à capela do Convento do Menino Deus. Era imensa, paralisante de frio e de nada, de um vazio nu que tornava todas ainda mais pequeninas. As meninas trepavam para as cadeiras altas e desconfortáveis e ali se quedavam, as pernas num baloiçar distraído a mais de dois palmos do chão.

Depois, chegava a Irmã Adelaide e dava início à função. Falava de coisas desconhecidas, com nomes impronunciáveis, como redenção, sacramento, liturgia, comunhão, expiação e sacrifício. Falava pausada e monocordicamente, ao mesmo tempo que gesticulava com amplitude, como se discorresse numa palestra na Sorbonne. A Irmã Adelaide não admitia, todas sabiam, interrupções – e nenhuma estava remotamente interessada em desobedecê-la.

A menina sentada na cadeira mais à esquerda, por baixo da grande janela de vitral, iniciada havia muito pouco tempo no fabuloso e apaixonante fenómeno das letras que por sua vez se transformavam em palavras, matutava, aborta, na formação da palavra Eucaristia, conquanto ainda só conhecesse as vogais. Pelo cantinho do olho, apercebeu-se que os caracóis loiros da coleguinha do lado pendiam, lenta mas inexoravelmente, na direcção do sul. Deu-lhe uma cotoveladinha discreta, que provocou uma onda repentina de caracóis a saltar como molas e um esbugalhar agradecido de um par de olhitos verdes. 

A Irmã Adelaide lá persistia na sua santa demanda evangelizadora, dissertando alheada e autista, para uma plateia que existia mas que não estava lá, para um conjunto de cadeiras num claustro de pedra absolutamente vazio. As meninas nunca entenderam uma única palavra da Irmã Adelaide. Mas não deve ter tido importância, porque ela nunca se apercebeu disso.

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Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

Take a walk on the wild side


Há tempos, a propósito de um texto que escrevi sobre a incapacidade dos homens encontrarem as cuecas sem ajuda de dispositivos de orientação, um amigo querido deixou-me na caixa de comentários como sugestão, à laia de desafio bem humorado, que escrevesse também sobre a incapacidade feminina de ler mapas.

E eu, que presto sempre muita atenção aos seus mais pequenos desejos, reflecti e tenho uma teoriazinha sobre o assunto. (E qual é a tipa que não tem uma teoriazinha sobre seja o que for?)

Primeiros, não é que as mulheres não saibam ler mapas. O que me parece é que as mulheres não dão muita importância ao tipo de leitura que os mapas fornecem. O que acontece é que as mulheres valorizam outras formas muito mais eficazes e gratificantes de percorrer um caminho e chegar ao destino.

Os homens preferem apoiar-se na segurança das linhas empírica e metodicamente traçadas num papel, o que os obriga a desviar os sentidos do que é realmente importante: o percurso. As mulheres optam por prestar mais atenção aos pontos de referência do caminho... e, a espaços, ir parando para PERGUNTAR e conferir se estão no trilho certo... e assim redefinir a rota conforme os sinais que vão encontrando.

E não é por acaso que as mulheres preferem assim. É por natureza... e por experiência. Quantas não fizemos já certas viagens, acompanhadas de gajos com o mapa imaculadamente dobradinho sobre os joelhos? E o gajo, concentrado, de dedinho firme e assertivo a acompanhar a linhazinha irregular e caprichosa a assegurar-nos que siiiiimmm... que é por ali... e a brindar-nos com um um impaciente “podes ir à vontade, mulher, tenho a certeza”, quando nos detectam um pestanejar hesitante e inquieto.

Para depois, ao fim de algum caminho percorrido, nos lançarem um olharzinho fugaz e displicente... e com uma vozinha morna de pivot da TVI, atirar, como quem dá milho aos pombos: “olhaaaaa... afinal não... não era por aqui”. E quando travamos a fundo, para cravarmos neles o olhar estupefacto, recebemos um evasivo “que queres... pensei que vínhamos bem... este mapa não presta... deve estar errado... não foste tu que o compraste?”

Não quero dizer com isto que há UMA maneira correcta de percorrer uma estrada. No fundo, os homens são mais de confiar em mapas; as mulheres são mais de interpretar os sinais. Pronteeess. A verdade verdadinha, mesmo mesmo, é que as mulheres, na sua infinita sabedoria, gostam é de apalpar o terreno.

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Domingo, 27 de Abril de 2008

Nós


A garotada saía da escola às seis horas. Deixávamos para trás o rigor paralisante e ácido da D. Natália e tinha então início o ritual da libertação. Primeiro, uma passagem rápida e barulhenta pelo Jardim de Santa Clara. Depois, uma corrida desenfreada e sem perigos colina abaixo, uma paragem protocolar à porta do numero 39, uma súplica berrada para o segundo andar, “vá lá, mãe, deixa-me lá ir”, o coro desafinado de “deixe-a lá, vá... é só meia horita”... Depois do pequeno interregno suplicante, a segunda etapa da descida... o breve intervalo da praxe na Pastelaria Alfacinha para aquisição a retalho de pastilhas Pirata (das pequenas, que, como toda a gente sabia, eram mais macias e permaneciam doces durante mais tempo) e lá partia o enxame ruelas abaixo, até ao estômago de Alfama, onde a maioria morava.

Havia sempre coisas fabulosas para imaginar naquele rendilhado mágico de travessas, calçadinhas, becos e vielas, onde todas as brincadeiras eram coradas de risos e onde todas as cumplicidades faziam sentido. Mas o prazer supremo era, sem sombra de hesitação, observar as movimentações nativas. A coisa corria da seguinte forma.

Havia na Rua da Regueira, naqueles anos de comércio tradicional escasso e pouco provido, uma espécie de entreposto comercial, equivalente, sem exagero (ok, um bocadinho) a um hipermercado actual, conhecido por toda a distinta comunidade como o Lugar da São. A São, empresária de muito trabalho e grande visão, era famosa pelo seu espírito empreendedor e comercial, bem como pela sua exacerbada susceptibilidade.

Maneiras que a malta chegava à Rua da Regueira, assentava arraiais discretamente nos degraus do gaveto a escassos metros do Lugar da São e esperava. Tinha dias em não se passava nada, senão o pulsar da antecipação a bailar nos olhares trocados de um grupelho de sacanitas, mas era raro. Poucas eram as vezes que regressávamos a casa defraudados nas nossas expectativas de voyeurs sem escrúpulos.

A coisa nem sempre começava da mesma maneira, nem assumia invariavelmente a mesma dimensão espectacular, sendo que as baixas e os danos materiais oscilavam sempre em número e gravidade, respectivamente.

Às vezes, bastava uma pequena insinuação. “Ó m’na São, eu queria uns tomates... mas parece que estão um bocado pisados... pelo menos foi o que disse a Micas... que os levou há bocado... e parece que não eram grande espingarda...” Ai, ai. Ou então: “Ó m’na São, eu levava uns caracóis... mas não quero daqueles que vendeu ao Albino Peixeiro, que já tinham lagartas...” Bom. Podia também ser uma coisa de pendor mais dramático, tipo facada em pleno peito: “Ó m’na São, veja lá se me pesa bem os pupinos ... não faça como à Dona 'Strudes , que o meio quartilho de azeite que lhe vendeu ficou-se por baixo da marca a mais de um dedo...”

E pronto. Let the show begin . A m’na São, minhota de ventas a hiperventilar , lá ia célere, propulsionada de raiva e indignação, bem aviada de artilharia em géneros nos bolsos fundos do avental, travar-se de razões com os caluniadores, seguida de perto pelos maldosos instigadores e pela não menos malévola plateia.

E depois era um “ouve lá, ó Albino, meu caralho, onde é que os meus caracóis têm lagartas? Isso não é bonito, fuoda-se !! Cuidas que os meus caracóis estão na casa há mais de duas semanas, como essas putas dessas bogas que aí tens a criar musgo desde o Carnaval? Hem ?”

E num repente se juntavam duas dúzias de almas que compunham o arraial e era um festival de vernáculo que explodia como fogo de artifício, acompanhado do arremesso de bogas, caracóis, tomates e todo o género de munições, num circo surreal onde engolíamos às golfadas momentos de puro prazer.

Ao início da noite já a paz descia sobre o bairro, flutuante no aroma irresistível do polvo a grelhar e no cheiro gordo das sardinhas a assar nos fogareiros à porta das casas. Era vê-los, ofendidos e ofensores, na tasca da Rua de São Pedro, em animada tertúlia, à roda da bela travessa de caracóis (sem larvas) e dos hectolitros de copos de três, na mais elevada e genuína das comunhões cristãs.

Há pequenos nadas que funcionam assim como que alfinetadas no histórico que nos empurram involuntariamente para o passado. Lembrei-me muito da São (y sus muchachos ) durante este fim de semana. Lembrei-me dela quando ouvi o Presidente da República a discursar sobre o 25 de Abril. Quando ouvi os líderes partidários a discursar sobre o 25 de Abril. Quando o Primeiro Ministro teceu considerações sobre o estado da Nação. Quando João Jardim lucubrou sobre o cheiro a podre do continente.

Passados tantos anos, continuo a ver os Portugueses como um grupo desnorteado mas coeso – como uma trupe de palhaços acrobáticos – de gente maleável, estrambelhada e baril, sempre mortinha para entrar numa boa peixeirada , ainda que os besugos apresentem já os olhos remelgados de duas semanas e um cheirinho a maresia do Dafundo... e sempre disponível para rever as suas convicções na presença de um bom pires de caracóis e de uma jola bem fresca.

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Domingo, 13 de Abril de 2008

Bisontes e outros facínoras




Há semanas que não se fala de outra coisa. Como se de uma conjugação cósmica se tratasse, surgem a cada dia relatos de vandalismo, incúria, violência e incompetência nas escolas. Como profissional da área da Educação, tenho assistido num silêncio por vezes um tanto envergonhado, mas sobretudo muito impaciente, ao apontar de indicadores assertivos e abalizados em todas as direcções, vindos de todas as direcções. De repente, toda a gente sabe tudo sobre AS ESCOLAS.


Como se as escolas fossem bares x-rated do Cais do Sodré, apenas frequentados por meliantes de barba por fazer e banho por tomar e loiraças imigrantes ilegais com lingerie de gosto duvidoso. Como se as escolas fossem antros pejados de jovens facínoras armados até aos dentes e funcionários públicos relapsos e incompetentes, sem autoridade nem preparação para manusearem com destreza cadeiras e chicotes. E, sobretudo, como se o problema fosse DELES.


Como se as escolas não estivessem cheias (algumas a abarrotar) de PESSOAS. Pessoas que não nasceram lá por geração espontânea e que no final do dia (quanto mais tarde melhor) regressam ao “mundo real”, que pode até ser o 3º frente do prédio amarelo logo ali a cinquenta metros.


Tá visto que é preciso avaliar. Claro que é. Avaliar é perceber o que foi feito de bom e o que correu mal, corrigir e aferir percursos. E podíamos começar por avaliar-nos como pessoas e que diabo andamos a fazer em relação às outras pessoas e de onde raio surgiu esta incompetência afectiva e relacional que não nos permite “ver” os outros e este hábito pernicioso e esvaziante e embotante de só dar aos outros coisas que não vêm de nós, de só dar coisas que não nos custa dar. E tentar perceber de onde vem este costume corrosivo de trocar atenção e tempo e colo por mp3 e consolas e sapatilhas de marca, como se negociássemos tapetes e camelos.


Maneiras que vou aqui deixar o texto que mais gostei de ler sobre educação nos últimos tempos.


A Geração do Écran


Desculpem se trago hoje à baila a história da professora agredida pela aluna, numa escola do Porto, um caso de que já toda a gente falou, mas estive longe da civilização por uns dias e, diante de tudo o que agora vi e ouvi (sim, também vi o vídeo), palavra que a única coisa que acho verdadeiramente espantosa é o espanto das pessoas.


Só quem não tem entrado numa escola nestes últimos anos, só quem não contacta com gente desta idade, só quem não anda nas ruas nem nos transportes públicos, só quem nunca viu os 'Morangos com açúcar', só quem tem andado completamente cego (e surdo) de todo é que pode ter ficado surpreendido.

Se isto fosse o caso isolado de uma aluna que tivesse ultrapassado todos os limites e agredido uma professora pelo mais fútil dos motivos - bem estaríamos nós! Haveria um culpado, haveria um castigo, e o caso arrumava-se. Mas casos destes existem pelas escolas do país inteiro. (Só mesmo a sr.ª ministra - que não entra numa escola sem avisar…- é que tem coragem de afirmar que não existe violência nas escolas…)


Este caso só é mais importante do que outros porque apareceu em vídeo, e foi levado à televisão, e agora sim, agora sabemos finalmente que a violência existe! O pior é que isto não tem apenas a ver com uma aluna, ou com uma professora, ou com uma escola, ou com um estrato social.


Isto tem a ver com qualquer coisa de muito mais profundo e muito mais assustador. Isto tem a ver com a espécie de geração que estamos a criar. Há anos que as nossas crianças não são educadas por pessoas. Há anos que as nossas crianças são educadas por ecrãs. E o vidro não cria empatia. A empatia só se cria se, diante dos nossos olhos, tivermos outros olhos, se tivermos um rosto humano. E por isso as nossas crianças crescem sem emoções, crescem frias por dentro, sem um olhar para os outros que as rodeiam.

 

Durante anos, foram criadas na ilusão de que tudo lhes era permitido. Durante anos, foram criadas na ilusão de que a vida era uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dava trabalho. E durante anos os pais e os professores foram deixando que isto acontecesse.


A aluna que agrediu esta professora (e onde estavam as auxiliares-não-sei-de-quê, que dantes se chamavam contínuas, que não deram por aquela barulheira e nem sequer se lembraram de abrir a porta da sala para ver o que se passava?) é a mesma que empurra um velho no autocarro, ou o insulta com palavrões de carroceiro (que me perdoem os carroceiros), ou espeta um gelado na cara de uma (outra) professora, e muitas outras coisas igualmente verdadeiras que se passam todos os dias.


A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar. A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento. E eles vão continuando a viver, desumanizados, diante de um ecrã.

E nós deixamos.


Alice Vieira, Escritora, In Jornal de Notícias, 30.3.2008

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Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Por outras palavras





A bem dizer - e ainda dentro do tema anterior - cá está o grande clássico do que uma (esta) gaja veria com muito bons olhos. Não é pedir muito, não?


I’m Your Man


If you want a lover

I'll do anything you ask me to

And if you want another kind of love

I’ll wear a mask for you

If you want a partner

Take my hand

Or if you want to strike me down in anger

Here I stand

I’m your man


If you want a boxer

I will step into the ring for you

And if you want a doctor

I’ll examine every inch of you

If you want a driver

Climb inside

Or if you want to take me for a ride

You know you can

I’m your man


Ah, the moon’s too bright

The chains too tight

The beast won’t go to sleep

I’ve been running through these promises to you

That I made and I could not keep

Ah but a man never got a woman back

Not by begging on his knees

Or I’d crawl to you baby

And I’d fall at your feet

And I’d howl at your beauty

Like a dog in heat

And I’d claw at your heart

And I’d tear at your sheet

I’d say please, please

I’m your man


And if you’ve got to sleep

A moment on the road

I will steer for you

And if you want to work the street alone

I’ll disappear for you

If you want a father for your child

Or only want to walk with me a while

Across the sand

I’m your man


If you want a lover

I’ll do anything you ask me to

And if you want another kind of love

I’ll wear a mask for you.


Leonard Cohen


publicado por The F Word às 19:38
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Terça-feira, 1 de Abril de 2008

O que eu quero



Dia destes um tipo mandou-me um mail. Não é assim um acontecimento extraordinário, nem notícia de abertura de telejornal, mas apetece-me falar dele. Contou-me, no seguimento de um desabafo que já tinha deixado há tempos na caixa de comentários, da bagagem pesada de vários relacionamentos falhados e das suas tentativas, quase sempre frustradas, de entender – e por conseguinte satisfazer – as mulheres que amou. Leio nele o esmorecimento de quem realmente tentou.


Está convencido que as mulheres dão demasiada importância a pequenas coisas... e continuam a suspirar, ainda e sempre, por um Príncipe Encantado que as faça felizes para sempre.


Elogia-me a clareza da escrita e pede-me, tout court, “que lhe explane, de uma vez por todas, que raio querem as mulheres”. 


É com ternura e algum constrangimento que descubro que há um tipo que acredita que eu, qual Júlio Machado Vaz em versão feminina, tenho resposta para as insondáveis idiossincrasias da natureza humana. Um homem assim desamparado e pateta desperta-me sempre uma certa meiguice. Mas tenho de dizer-lhe que não sei. Ou seja, sei que há duas ou três coisas que me parecem claras, mas isso sou eu.


Primeiro, quem dá importância a coisas pequenas é mulher de Japonês. In other words, o tamanho das coisas é directamente proporcional ao valor que lhes damos... e no que diz respeito aos afectos, “pequenas coisas” podem assumir a magnitude e o poder devastador de uma manada de elefantes.


Depois, a aristocracia já não é o que era... e os Príncipes, especialmente os Encantados, saíram de moda way , way back. In , in está o Shrek... e toda a gente sabe como ele se bufa despudoradamente - o que prova, por si só, que o espírito romântico está um bocado em crise.


Ser feliz para sempre também já foi chão que deu uvas. “Para sempre” é um conceito tão destituído de sentido como a existência do Coelhinho da Páscoa, dos unicórnios, dos homens que encontram as cuecas sem bússola e outras entidades mitológicas.


Também não sei se homens e mulheres querem coisas diferentes. Acho que todos procuramos o equilíbrio. E o equilíbrio, para a maioria dos seres humanos, não é solitário.


Eu acho que sei o que EU quero. O que eu quero é um cúmplice. Quero alguém que me toque antes de me tocar. Quero sincronia nos gostos, no prazer, no sentido de humor, na inteligência. Quero gargalhadas na calada da noite, serenidade, calor, silêncios sem nós. Assim simplezinho, simplezinho... quero, como dizia a minha avó Maria, ser a menina dos olhos de alguém. 


Não aceito menos disso. E sendo a mocinha teimosa e obstinada que sou, vou continuar a procurar – mesmo mesmo até ao último momento. Ah pois vou.


E no dia em que eu entrar no lar da terceira idade, vou olhar em volta e procurar o velhinho com o olhar mais límpido e mais vivo, com o sorriso mais infantil e mais safado (e se ele tiver uma pontinha de Parkinson na mão direita, melhor ainda) – e é mesmo ao lado dele que eu me vou sentar.

publicado por The F Word às 22:49
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Terça-feira, 25 de Março de 2008

Insignificâncias

 

Cá vêm as outras três.

 

4ª Adoro chocolates. Não são todos os chocolates. Como em quase tudo na vida, sou muito selectiva e ou é muito bom, ou não vale a pena. Mas alguns chocolates... Tenho com eles uma relação coesa e telepática, só comparável aos grandes clássicos românticos e às grandes experiências místicas de elevação da mente. Maneiras que não há a mais pequena hipótese de convivência pacífica e indiferente entre mim e um chocolate dentro da mesma casa. O processo é sempre o mesmo, repetido over and over até à exaustão. Eu tenho o chocolate. Escondo-o muito bem escondido e afasto-me, de ombros bem levantados, passos firmes e sorriso confiante, como quem abandona, altiva, um escroque que nos rasgou a alma. Tenho dentro de mim a mais absoluta convicção de que vou esquecê-lo. Depois, começam os apelos mentais. As mensagens telepáticas (toda a gente sabe que os chocolates têm uma inesgotável capacidade telepática) a chamar-me... a aliciar-me... a suplicar-me. E vá. É fatal como o destino, à boa maneira de um fado da Severa. Já cheguei a resistir dois ou três dias. Às vezes o meu estoicismo surpreende-me.
 
5ª Estou bem mais contente e reconfortada com estes novos pecados mortais instituídos pelo Vaticano. À excepção da minha pequena quota-parte na Poluição Ambiental – pois que lá vou gastando um gasóleozito... pois que lá me vou pseudo-esquecendo (aka desleixando) de separar alguns lixos, às vezes... pois que lá vou fazendo uns barbecues no quintal... - mas vá... no cômputo mundial, até serei uma pecadora possidónia e insignificante. Depois, aninho até uma esperança, pequenina mas tenaz, de conseguir ultrapassar (muito gosto eu de uma justiçazinha poética) o próprio Vaticano no pecado da Riqueza Desmesurada, tão logo me saia o Euromilhões com um jackpot (sim, eu sei que não pode ser dos pequenos). Com dois ou três dos TRADITIONAL SEVEN é que eu me vejo um bocado à nora.
 
6ª Há pequenos nadas que provocam em mim reacções físicas involuntárias e violentas que podem ser de arrepio ou náusea, ou até mesmo de uma ebulição doentia e esverdeada das entranhas, por vezes com resultados práticos de indelével memória. O tradicional barulhinho fino do giz no quadro, por exemplo. O raspar das unhas numa parede estucada. Sentir por entre os dedos a textura seca do algodão em rama e o som esgaçado que faz quando puxamos um pedaço. Ou quando uma mentira traiçoeira nos é atirada assim... à queima-roupa... e nem dá tempo de evitar aspirá-la numa golfada acre e asfixiante. A sensação de estupefacção indefesa é a mesma quando uma onda nos apanha desprevenidos e se nos entra orifícios dentro, mas o pirolito engole-se melhor. O zumbido das moscas varejeiras. Os miados excruciantes do João Pedro Pais. O cheiro do sangue a cozer para fazer as morcelas. Podia ficar aqui horas e horas, mas não. Não vou falar de política. Nem de religião. Nem da lavagem das tripas para os enchidos tradicionais. 


 

publicado por The F Word às 10:47
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Terça-feira, 18 de Março de 2008

Insignificâncias (às três de cada vez, como as pombinhas a voar)



O Sniper, blogger que muito aprecio pelo sentido de humor e sensibilidade poética, passou-me, num rasgo de grande generosidade, o desafio de enumerar seis insignificâncias acerca aqui da yours truly. Estas insignificâncias sê-lo-ão, obviamente, para o resto do mundo, porque para mim, que me lembrei delas, de algum significado se revestirão. Vamolá.


1ª  A primeira insignificância que se me assoma à lembrança, dada a loucura surrealista em que se transformou a minha vida profissional por estas alturas, é mesmo o meu ordenado, entidade de contornos vagos e longínquos que procuro vislumbrar na bruma dos dias, sendo certo que se observa um recorrente e acentuado espessamento da dita na última quinzena de cada mês.

2ª  Não gosto de sapatos. Melhor, os sapatos não gostam de mim. Não há recordação de nenhum par de sacanas (grupelho em que também incluo botas, sandálias e sapatilhas) que não me tenha roído e descarnado pedaços das extremidades inferiores. Por isso, o meu calendário não se rege pela chegada das Estações, Luas ou Solstícios. O meu ano divide-se em dois períodos distintos, a saber: a silly season, altura a partir da qual o tempo está soalheiro e ameno o suficiente para eu poder sair de chinelos sem que me deitem olhares de piedade... e a dolorosa rentrée, em que, qual ovelha sacrificial, me arrasto chorosa e mortificada em direcção ao armário dos sapatos, quando, por muito que invista no meu melhor ar de ligeiro atraso mental, não é mais possível fingir que não dou conta das chuvas torrenciais de fins de Outubro.

3ª  Sou cafeíno-dependente. Assim à primeira vista dá ideia que é o despertador que me acorda, mas não é. O meu despertar, na mais genuína e lúcida acepção da palavra, tem a forma voluptuosa de uma chávena escaldada a tresandar de cafeína. É aquilo a que vulgarmente se chama a transição para a vida activa. Tudo o que acontece a montante (como gosto desta palavra) do momento mágico, desde o singelo (e renitente) gesto de afastar os edredons, passando pelas etapas da higiene e vestuário e da comunicação (mais gestual que verbal) com os restantes nativos, é feito em piloto automático e com um mínimo de funcionalidades activas.


As restantes insignificâncias ficarão, por motivos que se prendem com o referido no número um, para outras núpcias.

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Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Novas opurtunidades: afinal, a aldeia glubal eziste mesmo






Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre valurizadas.

Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?

E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem ‘os lesiades’, q é um livro xato pra caralho e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.

Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o ‘garra de lin-chao’ é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???

O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé.

publicado por The F Word às 17:40
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Sou mulher de fluxos, correntes e cascatas. Evito a aridez. Julgo que seria incapaz de sobreviver no deserto.

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Junho 2008

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